Alguns dias atrás, uma garota de 13 anos que havia desaparecido em Pinhais (PR), na terça-feira da semana passada, dia 16, foi encontrada nesta segunda-feira (22) no município de Mandirituba, na Região Metropolitana de Curitiba. Segundo a polícia, ela estava na casa do namorado, que conheceu pela internet.
Porém duas mães de Salvador não tiveram a mesma de sorte de encontrar suas filhas vivas. Suas filhas que foram aliciadas pela Internet e seus corpos foram encontrados decapitados na madrugada deste sábado, 20, pela polícia em Salvador, na Bahia.
Gabriela Alves Nunes, de 13 anos, e Janaína Brito Conceição, de 16 anos, estavam desaparecidas desde há três dias. Os corpos das duas meninas foram encontrados no bairro San Martin, em um local próximo a onde um carro foi abonado. As portas estavam abertas e o porta malas, sujo de sangue. Elas foram aliciadas pela Internet. Os aliciadores da Internet procuram meninas e meninos. Quando escrevemos o livro, Crimes na Rede, a nosso maior preocupação sempre foram as crianças e os adolescentes.
A Internet propiciou uma revolução no campo das comunicações e das relações humanas; instalando-se uma mudança comportamental muita rápida, dificultando aos pais acompanhar o envolvimento dos filhos nesta nova linguagem.
E é nesse ambiente e através dessa linguagem que muitos pais desconhecem que advêm práticas de pessoas acima de qualquer suspeita, como os pedófilos, verdadeiros predadores que navegam na rede atrás de suas presas: crianças inocentes, abordadas e envolvidas nesse processo cruel e criminoso. Por ingenuidade ou omissão, os pais acabam sendo involuntariamente coniventes com este processo pernicioso. É evidente que, ao deixarmos vazio um lugar de autoridade, outro o ocupará. É precisamente da ausência de um que se faz a presença de outro nesse processo.
De natureza intelectual, sobretudo apresentada como uma ferramenta de desenvolvimento para crianças, a Internet acabou por ser incorporada à educação. Na ânsia de que seus filhos estejam atualizados e não se tornem “excluídos digitais”, os pais em geral não se dão conta, talvez por falta de conhecimento e provavelmente por falta de tempo, do quanto o uso da rede provoca danos morais e físicos aos seus filhos.
Dentro deste novo paradigma de aprendizagem, que se constitua como comportamento contumaz dos pais, a vigilância e a orientação.
Trata-se de um grande desafio, neste início de século – que envolve a tecnologia e o direito da criança e do adolescente – usufruir o direito de trafegar pela rede sem o perigo de ser assediado ou aliciado por criminosos. De posse do conhecimento deste risco, cabe aos pais orientar e proteger seus filhos do lado negro da rede.
Como navegar na rede tornou-se imprescindível na vida de todos no mundo atual, o acesso das crianças e adolescentes a Internet não deve ser proibido e sim orientado nesta caminhada pelo mundo cibernético.
Também cabe a todos se articular e assumir um papel neste debate, buscando denunciar qualquer atividade criminosa nos caminhos da rede, incluindo as crianças e adolescentes, que devem ser orientados com relação aos riscos e a informar tudo o que lhes parecer suspeito a um adulto responsável.
Penso que é necessário que todos os pais orientem seus filhos e estejam presentes em sua rotina e mantenham sempre aberto um canal de diálogo, livre de pré-julgamentos e numa rua de mão dupla. Mesmo nessa vertiginosa rotina de metrópole, estando pais e filhos imersos cada qual em suas atividades, de modo que nem sempre é possível estarem juntos com a qualidade de atenção que gostariam, é necessário aproveitar cada precioso momento em que isso acontece para conversarem e para que os pais se atualizem das mudanças que seus filhos atravessam e sobre seus relacionamentos, virtuais ou reais.
Sendo assim, meu conselho é que todos os pais que estejam lendo este material tirem um tempo para estar com seus filhos, para conversar abertamente e orientá-los sobre o assunto.
Meu desejo é que este possa artigo possa gerar bons diálogos e até mesmo aproximar duas gerações tão diferentes e que tem entre elas uma ferramenta tecnológica que vem gerando mudanças tão aceleradas e profundas que temos dificuldades de acompanhar.
Sempre é tempo de resgatarmos nossos filhos de situações inesperadas e difíceis, independente de sua idade. Sempre é tempo de assumirmos nossos papéis de educadores e nossa responsabilidade em indicar os caminhos. Sempre é tempo de reativar neles a confiança e a segurança de que estaremos sempre aqui por eles.
Também é necessário o engajamento dos educadores na busca de uma Internet mais segura e legítima porque, ao lado dos pais, eles são capazes de ajudar a criança e o adolescente nesse processo de envolvimento e adaptação a este novo paradigma de comunicação e comportamento.
O tema já se tornou uma das principais preocupações no mundo todo e tem gerado grande inquietação no nosso país, que está entre os campeões em tráfico na rede, pedofilia e invasão de computadores.
Por isso gostaria de alertar tanto pais quanto educadores sobre a urgência da necessidade de um debate sobre a Internet e suas conseqüências nos lares e nas escolas, com o objetivo de ampliar a consciência de todos quanto aos perigos que rondam os usuários diante de uma aparentemente inocente tela de computador.
É notório que os computadores têm a capacidade de ajudar a criança em seu processo de aprendizagem, desenvolvendo competências e habilidades através de métodos pedagógicos, auxiliando nas suas destrezas cognitivas uma infinidade de conhecimentos, como base para a aprendizagem atual, de conceitos mais complexos.
A Internet facilita a aprendizagem através de pesquisas e projetos temáticos e acesso rápido a milhares de atividades fascinantes, enriquecedoras e instrutivas. No mundo virtual a educação passa a ser através da experiência da ciência tecnológica. Futuramente teremos uma biblioteca universal em todos os idiomas, envolvendo o educador e aluno em uma aprendizagem em tempo real.
O desenvolvimento nas relações sociais é outro grande benefício que a Internet trouxe para a geração atual e mudou definitivamente a forma de relacionar-se das pessoas, estreitando distâncias físicas e permitindo que pessoas da mesma família ou amigos possam se comunicar em tempo real, mesmo estando de lados opostos do globo.
A despeito de todos esses benefícios, uma questão sócio-cultural a ser considerada no momento é a de milhares de crianças e jovens que crescem sem nenhum acesso aos computadores, aumentando ainda mais a segregação econômica e social, criando um grupo de “excluídos digitais”.
Embora haja problemas de base social ainda mais graves a serem resolvidos antes de se facilitar o acesso de crianças carentes aos computadores, seria fundamental que todas as crianças em seu processo de formação pudessem ter acesso a essa tecnologia e a esse novo paradigma de educação. Porém, para que esta nova realidade do acesso digital e esse novo paradigma de educação sejam de fato enriquecedores, faz-se necessário o equilíbrio entre a tecnologia e a educação orientada, para que não haja danos futuros.
Para que isso aconteça deve haver uma presença educativa que forneça modelos e orientação constante em um ambiente construído sobre uma base segura onde prevaleça a confiança. Cabe aos pais estabelecer limites claros sobre o uso da rede bem como lançar mão das ferramentas de controle parental e aos educadores promover o debate aberto sobre o tema sempre que possível e voltar a ele quando julgarem necessário.
Essa parceria pode resultar na articulação de uma rede de proteção, envolvendo a família, a escola e a comunidade, evitando que a criança ou o adolescente estejam vulneráveis a ação de criminosos e ao mesmo tempo criando uma base de apoio para famílias cujos filhos correm o risco de serem envolvidos nas atividades criminosas.
Uma ação articulada entre a família, a escola e a comunidade também favorece um debate rico na sociedade envolvendo os órgãos públicos, instituições acadêmicas, organizações não-governamentais, e o Sistema de Justiça, composto por delegados, policiais, advogados, promotores e juízes da infância e juventude, técnicos judiciários e os conselhos tutelares.
Deste modo, podemos garantir juntos um ambiente seguro onde todos podemos circular sem riscos.
Algumas orientações específicas aos pais
1. Procure aprender mais sobre esta linguagem, conhecendo o funcionamento e aplicabilidade, navegando sozinho(a) ou com seu filho ou filha.
2. Não é necessário proibir de usar a internet, porém é necessário dialogar abertamente sobre quais os conteúdos que são adequados para cada idade.
3. Considere a limitação do tempo de acesso e conteúdos acessados de acordo com a faixa etária de seu filho ou filha e estabeleça regras de navegação; não é necessário proibir o uso da Internet e se forem bem orientados, naturalmente irão construindo seu próprio sistema de valores e discernindo quais os conteúdos adequados e tempo de utilização necessária da ferramenta.
4. Estabeleça regras razoáveis e possíveis de serem cumpridas, mas seja firme quanto à cobrança daquelas já estabelecidas. Lembre-se que a coerência é fundamental na sua formação.
5. Não abra mão das ferramentas de controle parental que são excelentes auxiliares no monitoramento da navegação.
6. Mantenha o computador em áreas comuns da casa como a sala e nunca no quarto de seu filho ou filha; deste modo pode tanto monitorar os conteúdos acessados quanto o uso da webcam.
7. Mantenha um canal de diálogo freqüente e aberto e use a ferramenta a seu favor, utilizando os comunicadores instantâneos no monitoramento caso sua ausência seja necessária; porém, considere a presença de alguém responsável que possa monitorá-lo de perto.
8. Através do diálogo e respeitando sua privacidade, converse sobre os conteúdos que acessa, sites de relacionamento onde mantém um perfil e procure conhecer seus blogs, com quem conversa através dos comunicadores instantâneos e as comunidades e fóruns dos quais participa.
9. Permita que entre somente em salas de bate-papo monitoradas e com temas específicos e adequados, orientando sobre os possíveis riscos de assédio.
10. Procure saber as regras dos sites freqüentados pelo seu filho ou filha, porque muitos são proibidos para menores, porém essa não é uma regra obedecida espontaneamente pelas crianças e adolescentes.
11. Oriente a:
• Conversar através dos comunicadores instantâneos somente com conhecidos, pessoas de seu meio como colegas de escola, parentes e professores e nunca com estranhos;
• Nunca fornecer dados pessoais como endereço e hábitos, escola onde estuda, etc. em sites de relacionamento como o Orkut e MySpace;
• Não postar fotografias que denunciem dados pessoais nestes sites e utilizar-se das ferramentas de privacidade.
• Não marcar encontros com pessoas através da Internet sem seu conhecimento e sua expressa autorização.
• Avisar sobre qualquer atividade que lhe parecer suspeita, bem como se encontrar material ofensivo ou violento, sofrer qualquer assédio ou tentativa de aliciamento; neste caso converse e o oriente sobre as ações que pretende tomar e denuncie!
12. O tempo de seu filho ou filha deve ser planejado incluindo atividades escolares, físicas, culturais e sociais, portanto ofereça alternativas de lazer e atividades extracurriculares para diminuir o tempo em frente ao computador.
13. Crie para seu filho ou filha um ambiente de apoio e acolhimento e incentive dizendo firme e claramente o quanto é inteligente e capaz de reagir ao assédio ou aliciamento, ou mesmo quando alguém fizer algo que incomode ou o(a) deixe constrangido(a).
14. Fique atento a possíveis mudanças de comportamento que possam denunciar assédio ou aliciamento virtual, que podem ser:
• Ficar conectado(a) muito mais tempo do que o necessário para seu estudo e entretenimento ou preferir a Internet em detrimento de suas atividades sociais, como estar com os amigos o que pode também, em última instância, se configurar vício.
• Demonstrar que conheceu alguém através da Internet sobre quem não pode ou não quer falar, não revelando toda a verdade
• Fechar rapidamente a tela do computador quando está conectado(a) e alguém se aproxima.
15. Em caso de contato com o agressor, algumas observações devem ser feitas:
• A criança ou adolescente é a vítima e foi usado(a) por alguém sem escrúpulos, portanto necessita de todo o apoio e proteção, portanto nunca o(a) culpe e evite reações que possam exacerbar sua angústia.
• Em caso de abuso a criança ou adolescente tende a perder a autoconfiança e confiança nas pessoas, sentindo culpa, vergonha ou medo de se expor. Se necessário procure orientação de um profissional na área de psicoterapia e nunca retire seu amor.
Sites para denúncia
Abranet – O site da Associação Brasileira de Provedores de Acesso banca a campanha “Pornografia Infantil – N@o”, que, em parceria com o Ministério Público, abre espaço para denúncias de sites ilegais. A denúncia é anônima. www.abranet.org.br (português)
Abrapia – O site da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência traz a história dessa ONG que trabalha na promoção e defesa dos direitos de crianças e adolescentes. É possível ler o Estatuto da Criança e do Adolescente e fazer denúncias, por e-mail ou telefone, de qualquer tipo de violação da lei. www.abrapia.org.br (português)
Cecria – O Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes estuda questões relacionadas a violação, promoção, proteção e defesa dos direitos da criança e do adolescente. Conheça as leis nacionais e internacionais sobre o assunto e leia os relatórios de pesquisas realizadas pela entidade. www.cecria.org.br (português)
Denuncie = http://www.safernet.org.br/site/
para ler mais acesse www.consciencianarede.com.br
Arlete Figueiredo Muoio
Analista de Segurança da Informação e Perita Digital